O Centenário da Imigração tem rendido boas comemorações para nós, descendentes de japoneses. Minha familia não veio no Kasato Maru, mas os primeiros japoneses que colocaram os pés na “terra, em se plantando, tudo dá”, certamente inspiraram os tantos outros que seguiram seu exemplo e vieram tentar a sorte nesta nova terra.
Rodrigo Mizusaki Katayama escreveu um texto no site da Abril sobre como seríamos se tivéssemos nascido no Japão. E quer saber?! Eu não nasceria lá por nada nesse mundo… Mas tenho muito orgulho de ter raízes lá e também de ser brasileira, por mais que o meu país tenha (muitos) defeitos.
Porque somos nikkeis!
Este ano a batian faz 92 anos. Não coincidentemente, porque até onde eu sei a batian AINDA faz aniversário todo ano (diferentemente de algumas tias), celebraremos em 2008 os outros 100 anos que passaram desde o tal 18 de junho de 1908.
Isso tudo me levou a uma pequena reflexão para convencer os 30 e tantos primos e os 16 tios a comparecerem ao aniversário, mas que serve para todos nós, nikkeis: se a dona Shimako (ou seja lá quem for) não tivesse entrado no navio as coisas iam ser bem diferentes…
-Em vez de fazer parte de 1,5 milhões de nipo-brasileiros, faríamos parte dos 127,4 milhões de japoneses. Seríamos apenas mais do mesmo.
-Em vez de nos orgulharmos de nunca ter perdido uma guerra, nos orgulharíamos de nossos heróis terem se jogado junto com os aviões para matar os inimigos.
-Em vez de carnaval, a festa da primavera.
-Em vez de sermos provenientes de uma cultura que está na moda, pintaríamos o nosso cabelo de loiro e usaríamos roupas estranhas para TENTAR ficar na moda.
-Ficaríamos bêbados com cerveja e sakê. E ficaríamos vermelhos.
-Em vez de inventarmos uma história qualquer quando fizéssemos qualquer besteirinha, cometeríamos haraquiri.
-Nossos poemas teriam 3 versos. Sem rima.
-Em vez de lamentar um crescimento econômico de 4,5% ao ano, festejaríamos qualquer 2%.
-Em vez de viver numa cultura que colocou uma loira ex atriz pornô para apresentar programas infantis, viveríamos numa cultura que faz desenho animados pornográficos.
-Em vez de balada, karaokê.
(homens)
-As mulheres teriam controle da relação.
-As mulheres teriam o controle sobre o nosso dinheiro.
-Se estivéssemos solteiros depois dos 30, em vez de playboys, seríamos encalhados.
(mulheres)
-Os homens não seriam tão bobos a ponto de pensar que têm o controle da relação.
-Os homens não seriam tão bobos a ponto de pensar que têm o controle sobre o próprio dinheiro.
-Os homens não seriam tão bobos a ponto de pensar que não ficam ridículos como playboys de 30 anos.
(sessão comida)
-Em vez de comer sashimi de salmão toda a semana no rodízio porque é bacana, comeríamos arroz com umeboshi e missoshiro no café da manhã porque é o que se come.
-Nossos doces seriam bonitos, mas horríveis.
-Em vez de comer lámen quando não tem nada pra comer em casa, comeríamos rámen quando saíssemos para almoçar.
-Feijão seria doce e viria dentro de um pão.
-Em vez de comer feijão com bacon no dia a dia, comendo algo leve quando dá peso na consciência, comeríamos light todo dia, e a sustância seria o McDonald´s.
-Não haveria churrascarias rodízio. Muito menos churrascarias rodízio que servem sashimi.
Não que seja muito difícil você saber da sua ascendência nipônica. Afinal, 100 anos de imigração não é tanto tempo assim. E se você não sabe se teus avós são japoneses ou não, seja por desconfiar do padeiro da sua mãe, seja por ter uma vida cheia de desencontros digna de novela das oito, putz, não vai ser aqui que você vai resolver seu problema.
Mas todo nikkei, por mais paraguaio que seja, tem algumas características fazem o nipo-brasileiro.
Todo nikkei:
- fica ofendido quando dizem que arroz japonês é empapado
- chama a avó de batian e entende, ainda que não saiba falar, o dialeto “batianês”
- sabe comer de palitinho instintivamente
- gostava mais do jaspion que do chaves
- tem família que veio do interior
- tempera a salada com shoyu
- era chamado de “baka” ou “bakataré” quando fazia alguma besteira na infância
- serve um monte de comida quando recebe visitas
- já participou de uma missa onde se servia comida depois (makisushi, pastel de palmito e croquete de peixe)
- tem pernas curtas, assim como a mentira
- tem bigode infame e barba rala
- tem pais ou avós que guardam um monte de tranqueira que nunca vai ser usada na casa inteira: pote de sorvete, guarda chuva quebrado, roupa que não usa, vidro de palmito, enciclopédia, fitas cassete e VHS…
- já ouviu alguém mais velho dizer “motainai!” quando tentou jogar alguma dessas tranqueiras no lixo


